
Durante muito tempo, a menopausa foi abordada como o momento em que os ciclos menstruais terminam. Hoje, sabe-se que esse marco representa apenas uma parte de uma transição biológica mais ampla, marcada por oscilações hormonais, alterações metabólicas e mudanças progressivas em diferentes tecidos do organismo.
A menopausa natural ocorre, em geral, entre os 45 e os 55 anos e é definida retrospectivamente após 12 meses consecutivos sem menstruação. Antes dela, existe a transição menopausal, frequentemente chamada de perimenopausa, que pode prolongar-se por vários anos e apresentar diferentes trajetórias clínicas. Ondas de calor, alterações no sono e no humor, mudanças na composição corporal, desconfortos articulares e manifestações cutâneas podem começar ainda nessa fase, antes da última menstruação.
Essa compreensão muda a forma de acompanhar a mulher no climatério. Em vez de esperar que alterações importantes já estejam instaladas, o período de transição pode ser entendido como uma janela para avaliação precoce, educação em saúde e adoção de estratégias capazes de favorecer a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento.
Também é nesse contexto que o colágeno ganha relevância clínica. A redução da atividade estrogênica não se restringe ao sistema reprodutivo, mas também influencia tecidos como pele e ossos, incluindo alterações na matriz extracelular e no metabolismo do colágeno.. Compreender quando essas mudanças se iniciam e como evoluem nos primeiros anos após a menopausa é fundamental antes de discutir estratégias nutricionais e o possível papel dos peptídeos de colágeno.
A geração de mulheres que atualmente atravessa o climatério encontra um cenário diferente daquele vivido por gerações anteriores. O assunto está mais presente nas consultas, nas pesquisas científicas e nas discussões sobre longevidade e saúde feminina. Ao mesmo tempo, mais mulheres procuram compreender os próprios sintomas, rever hábitos e participar ativamente das decisões relacionadas à sua qualidade de vida.
Esse movimento é especialmente relevante porque as mulheres estão vivendo mais e, consequentemente, permanecendo por mais tempo na pós-menopausa. Em 2021, as mulheres com 50 anos ou mais correspondiam a 26% da população feminina mundial, em comparação com 22% ao longo de 10 anos antes. Além disso, uma mulher que chegava aos 60 anos em 2019 poderia esperar viver, em média, mais 21 anos.
As projeções demográficas mais recentes das Nações Unidas estimam que, em 2026, a expectativa de vida feminina global ao nascer seja de aproximadamente 76,4 anos. Entre as mulheres que chegam aos 65 anos, a expectativa média é de mais 19,3 anos de vida, alcançando cerca de 84 anos. Isso significa que uma parcela crescente das mulheres poderá viver duas ou até três décadas após a menopausa, reforçando a importância de cuidados iniciados ainda no climatério.
Muito além de controlar sintomas isolados, cresce o interesse por atravessar essa fase com disposição, independência, boa capacidade funcional e menor risco de doenças crônicas. Alimentação, exercício físico, sono, saúde mental, modulação da composição corporal, saúde óssea e cuidados com a pele passam a integrar uma visão mais abrangente do envelhecimento feminino.
Revisões recentes (Jiang et al., 2025) também têm destacado o conceito de autogestão da saúde durante a transição menopausal. Ele inclui ações como procurar informação qualificada, realizar mudanças no estilo de vida, acompanhar fatores de risco e discutir possibilidades terapêuticas com profissionais de saúde. Quando baseada em evidências e integrada ao cuidado multiprofissional, essa participação ativa pode ajudar a mulher a lidar com sintomas e preparar-se para uma vida mais longeva.
Entretanto, maior acesso à informação não significa necessariamente maior clareza. Muitas mulheres ainda chegam à perimenopausa sem reconhecer que estas alterações no sono, no humor, na cognição, na pele, entre outras podem estar relacionadas à transição hormonal.
É também nesse período que alterações menos perceptíveis podem começar a ocorrer no tecido conjuntivo. Enquanto sintomas vasomotores frequentemente recebem maior atenção, mudanças relacionadas ao metabolismo do colágeno podem evoluir de forma silenciosa e manifestar-se na pele, nos ossos, nas articulações e na capacidade musculoesquelética.
A última menstruação é comumente utilizada como referência para definir a menopausa, mas o processo de envelhecimento reprodutivo começa antes desse marco. A menopausa corresponde a um ponto dentro de uma transição mais extensa, e não ao início repentino das mudanças hormonais.
O termo climatério descreve essa passagem mais ampla entre o período reprodutivo e o não reprodutivo. Dentro dele, encontra-se a transição menopausal, período em que a função ovariana se torna progressivamente mais irregular, até que ocorra a última menstruação. Já a perimenopausa compreende o início dessas alterações clínicas e menstruais e estende-se até 12 meses após a última menstruação.
A própria menopausa é identificada apenas retrospectivamente: considera-se que ela ocorreu quando a mulher completa 12 meses consecutivos sem menstruar, desde que não exista outra causa fisiológica, patológica ou medicamentosa para a amenorreia. Portanto, no momento em que acontece, a mulher ainda não sabe necessariamente que aquele foi seu último ciclo menstrual.
Da regularidade menstrual à transição menopausal
O sistema de classificação STRAW+10, uma das principais referências para o estudo do envelhecimento reprodutivo feminino, organiza esse processo em estágios definidos pelas características do ciclo menstrual.
Na fase reprodutiva tardia, os ciclos ainda podem parecer regulares, embora já ocorram alterações na reserva ovariana. A redução do número de folículos disponíveis leva à diminuição progressiva de marcadores como o hormônio anti-mülleriano, o AMH, e a inibina B. Essas mudanças podem anteceder irregularidades menstruais perceptíveis.
A transição menopausal inicial é caracterizada por uma diferença persistente de sete dias ou mais na duração de ciclos consecutivos. A menstruação pode adiantar, atrasar ou alternar entre ciclos mais curtos e mais longos. Nesse estágio, ainda pode ocorrer ovulação.
A transição menopausal tardia começa quando surgem intervalos de amenorreia iguais ou superiores a 60 dias. Os ciclos anovulatórios tornam-se mais frequentes, os períodos sem menstruar ficam progressivamente mais longos e sintomas como ondas de calor, sudorese noturna e distúrbios do sono podem tornar-se mais evidentes. Essa fase costuma concentrar algumas das oscilações hormonais mais intensas de toda a transição.
Após a última menstruação, inicia-se a pós-menopausa. Nos primeiros anos após a última menstruação, especialmente nos dois primeiros, ainda ocorrem mudanças hormonais importantes antes de uma relativa estabilização do perfil hormonal da pós-menopausa. É justamente nesse período próximo à última menstruação que algumas mudanças ósseas, metabólicas e estruturais podem ocorrer de forma mais acelerada.
Uma transição sistêmica, e não apenas reprodutiva
As oscilações hormonais durante a transição menopausal e a posterior redução dos níveis de estrogênios, repercutem em diferentes tecidos porque os receptores de estrogênio estão distribuídos por diversos sistemas do organismo. Por essa razão, a transição menopausal pode envolver alterações: vasomotoras, como ondas de calor e sudorese noturna; neuropsíquicas, incluindo mudanças no sono, humor e cognição; metabólicas e relacionadas à composição corporal; geniturinárias; ósseas e musculoesqueléticas; cutâneas e relacionadas ao tecido conjuntivo.
Essas manifestações não ocorrem de forma uniforme, sendo que algumas mulheres apresentam sintomas intensos ainda durante a perimenopausa, enquanto outras atravessam a transição com poucas queixas. Histórico de saúde, genética, hábitos de vida, contexto psicossocial e condições clínicas também interferem nessa experiência.
As alterações no metabolismo do colágeno começam a ganhar relevância ainda durante a transição menopausal.
Um estudo longitudinal do Study of Women’s Health Across the Nation (SWAN) mostrou que os marcadores de remodelação óssea relacionados ao colágeno tipo I permaneceram relativamente estáveis até cerca de três anos antes da última menstruação. Entre os três anos anteriores e os três anos posteriores a esse marco, porém, o CTX, marcador de reabsorção óssea, aumentou aproximadamente 10,3% ao ano, enquanto o PINP, marcador de formação óssea, aumentou cerca de 7,5% ao ano. Nesse período, o aumento mais acentuado do marcador de reabsorção em relação ao marcador de formação é consistente com uma fase de remodelação óssea acelerada, que coincide com o período de perda óssea mais rápida ao redor da menopausa.
Em um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo (KÖNIG et al., 2018), 131 mulheres na pós-menopausa, com redução da densidade mineral óssea relacionada à idade, receberam 5 gramas diários de peptídeos específicos de colágeno ou placebo durante 12 meses.
Ao final do estudo, o grupo que recebeu os peptídeos apresentou aumento da densidade mineral óssea na coluna lombar e no colo do fêmur, além de alterações favoráveis nos marcadores de formação e degradação óssea. Os resultados sugerem que determinados peptídeos de colágeno podem atuar como estratégia adjuvante no cuidado da matriz óssea em mulheres na pós-menopausa.
Outro estudo realizado em mulheres na pós-menopausa com osteopenia comparou a suplementação de cálcio e vitamina D com ou sem a adição de 5 gramas de peptídeos bioativos de colágeno durante três meses (Argyrou et al., 2020). A combinação contendo colágeno promoveu alterações nos marcadores de remodelação óssea que foram interpretadas pelos autores como possível redução do turnover ósseo característico dessa fase.
A consideração do uso de peptídeos de colágeno durante a perimenopausa ou a pós-menopausa deve levar em conta o objetivo nutricional e a avaliação individual. Eles representam uma abordagem de interesse crescente, desde que sejam considerados fatores como origem da matéria-prima, processo de hidrólise, distribuição do peso molecular, perfil peptídico, dose utilizada e respaldo científico.
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Fontes
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-Shieh A, Karlamangla AS, Gossiel F, Eastell R, Greendale GA. Changes in Collagen Type I C-Telopeptide and Procollagen Type I N-Terminal Propeptide During the Menopause Transition. J Clin Endocrinol Metab. 2024 May 17;109(6):1580-1589. doi: 10.1210/clinem/dgad727. PMID: 38087944; PMCID: PMC11099485.
-KÖNIG, D.; OESSER, S.; SCHARLA, S.; ZDZIEBLIK, D.; GOLLHOFER, A. Specific Collagen Peptides Improve Bone Mineral Density and Bone Markers in Postmenopausal Women—A Randomized Controlled Study. Nutrients, v. 10, n. 1, art. 97, 2018. DOI: 10.3390/nu10010097. PMID: 2933790
-Lampropoulou-Adamidou K, Karlafti E, Argyrou C, Makris K, Trovas G, Dontas IA, Tournis S, Triantafyllopoulos IK. Effect of Calcium and Vitamin D Supplementation With and Without Collagen Peptides on Volumetric and Areal Bone Mineral Density, Bone Geometry and Bone Turnover in Postmenopausal Women With Osteopenia. J Clin Densitom. 2022 Jul-Sep;25(3):357-372. doi: 10.1016/j.jocd.2021.11.011. Epub 2021 Nov 25. PMID: 34980546.
-UNITED NATIONS, Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2024: Online Edition. New York: United Nations, 2024.


