
Os últimos anos evidenciaram algo que a prática clínica dos profissionais de saúde já apontava há bastante tempo: a saúde mental é um componente essencial na saúde integral. Depressão, ansiedade e síndrome de burnout deixaram de ocupar um espaço periférico e passaram a integrar, de maneira central, as discussões em políticas públicas, pesquisas científicas e, sobretudo, na rotina dos profissionais de saúde.
No Brasil, o Janeiro Branco surge como uma campanha estratégica para colocar o cuidado emocional em foco desde o início do ano, incentivando reflexão, diálogo e ações concretas de promoção de saúde mental. Mais do que um mês de conscientização, o Janeiro Branco é um convite: repensar hábitos, rotinas e prioridades – tanto dos pacientes quanto dos próprios profissionais de saúde.
Criado em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, o Janeiro Branco é um movimento brasileiro dedicado à conscientização sobre saúde mental e emocional. A campanha estimula pessoas, instituições e profissionais a refletirem sobre fatores que impactam o bem-estar psíquico e a estruturarem estratégias de prevenção e cuidado ao longo de todo o ano.
Na edição de 2025, o tema proposto foi “O que fazer pela saúde mental agora e sempre?” Esse foco em ação contínua dialoga diretamente com a prática clínica: não se trata apenas de intervenções pontuais diante de um adoecimento instalado, mas da construção de ambientes, rotinas e redes de apoio que favoreçam a saúde mental.
A saúde mental no Brasil vive um cenário de alerta, evidenciado por indicadores que demonstram o crescente número de pessoas com transtornos emocionais. A depressão, por exemplo, atinge cerca de 15,5% dos brasileiros ao longo da vida, segundo o Ministério da Saúde, e os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) revelam que a depressão autorreferida aumentou de 7,6% em 2013 para 10,2% em 2019, com maior prevalência nas regiões Sul e Sudeste. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também ressalta que a depressão está entre as principais causas de incapacidade global, contribuindo significativamente para o ônus de doenças crônicas ao longo da vida.
Outro ponto crítico é a síndrome de burnout, agora reconhecida como fenômeno ocupacional. A condição tem se destacado especialmente entre profissionais de saúde, com revisões científicas apontando prevalências elevadas em médicos, residentes e equipes de enfermagem, refletindo o desgaste físico e emocional associado às exigências intensas do trabalho assistencial. Em 2024 dados oficiais indicaram 471.649 afastamentos por transtornos mentais no Brasil - o maior índice da década (AMBRAC, 2025). O crescimento desses afastamentos em relação a 2023 foi de aproximadamente 68 %. Uma pesquisa citada pela AMBRAC indicou que 34 % dos brasileiros relatam “angústia constante” e 38 % afirmam estar em processo de recuperação emocional.
Para profissionais de saúde, o Janeiro Branco é uma oportunidade de reforçar com pacientes que o cuidado emocional é construído na rotina, em pequenas práticas consistentes. A seguir, alguns pilares de autocuidado integral que podem ser abordados em consultas, materiais educativos e programas de prevenção:
O sono adequado exerce um papel central na regulação emocional ao influenciar diretamente o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, modular hormônios como cortisol, leptina e grelina e favorecer o processamento emocional e a consolidação de memórias. Para profissionais de saúde, é essencial investigar hábitos de sono, incluindo latência, despertares noturnos e uso excessivo de telas, e orientar medidas de higiene do sono, como ajustes no ambiente, exposição à luz, consumo de cafeína e regularidade de horários. As recomendações devem priorizar mudanças progressivas e factíveis, evitando propostas abruptas que tendem a ser pouco sustentáveis.
Uma revisão sistemática e meta-análise pré-registrada (Palmer et al., 2023) avaliou mais de 50 anos de pesquisas experimentais sobre privação/alteração do sono e suas consequências emocionais. Foram incluídos 154 estudos experimentais. Os tipos de manipulação do sono incluíram: privação total do sono, restrição parcial do sono e fragmentação do sono noturno. Os desfechos emocionais avaliados foram afeto positivo, afeto negativo, perturbações gerais de humor, reatividade emocional, sintomas de ansiedade e sintomas depressivos. Os autores mostraram que períodos de vigília estendida, duração de sono reduzida ou múltiplos despertares noturnos impactam adversamente o funcionamento emocional humano. Isso reforça a importância de considerar o sono não apenas sob o ângulo da recuperação física, mas como componente essencial da regulação da emoções.
Padrões alimentares equilibrados têm sido associados, em estudos observacionais, a menor risco de transtornos depressivos e ansiosos (Selvaraj et al., 2022). No atendimento clínico, podem ser reforçados aspectos como fracionamento adequado das refeições, maior ingestão de frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes de gorduras saudáveis, além da redução do consumo de ultraprocessados ricos em açúcares e gorduras trans. AA hidratação constante ao longo do dia também é fundamental, devendo considerar fatores individuais como prática de atividade física e condições climáticas. Além disso, manter uma rotina de suplementação adequada com nutrientes que auxiliem no bem-estar integral, ajudam a proporcionar indiretamente benefícios que aumentem a autoestima.
A atividade física é consistente na literatura como uma das estratégias mais eficazes de promoção da saúde mental, contribuindo para a redução de sintomas depressivos leves a moderados, melhor regulação do estresse e da ansiedade e aumento da sensação subjetiva de bem-estar.
Na prática diária, recomenda-se incentivar qualquer forma de movimento prazeroso e adaptar as orientações ao contexto de cada pessoa, considerando limitações físicas, disponibilidade de tempo e acesso a ambientes seguros.
Um recente estudo (Zhang et al., 2025) investigou a associação entre exercício físico e a habilidade de regulação emocional em estudantes universitários, com foco no papel mediador sequencial da resiliência psicológica e da autoeficácia. Foram usados dados transversais da “Chinese College Students Physical Activity and Health Longitudinal Survey (CPAHLS-CS)”, coletados via questionário online com uma amostra de 10.923 participantes de graduação. Os achados mostraram que, para estudantes universitários, engajamento em atividade física pode contribuir para uma melhor regulação emocional, especialmente quando se desenvolvem crenças de autoeficácia (confiança na própria capacidade) e, em menor extensão, resiliência. Do ponto de vista clínico ou de promoção de saúde, isso reforça a visão de que o exercício não atua isoladamente, mas como parte de um conjunto de recursos psicológicos que favorecem o bem-estar emocional, sobretudo em populações mais jovens.
O cuidado emocional também se sustenta na qualidade das relações e na criação de espaços de expressão individual. Vínculos sociais, hobbies, práticas artísticas e leitura oferecem momentos de pausa, desconexão de estímulos digitais e fortalecimento da saúde psíquica. Profissionais de saúde podem explorar com os pacientes como tem sido o “tempo de qualidade” na rotina, incentivando a inclusão de atividades não produtivas, mas restauradoras, que contribuem para equilíbrio e bem-estar.
Rotinas de skincare e cuidados com a aparência, embora não tratem transtornos mentais, podem integrar rituais de autocuidado que ajudam a promover sensação de pausa e conexão com o próprio corpo. Esses momentos podem funcionar como práticas simbólicas de prazer e organização interna.
Embora a suplementação de peptídeos de colágeno não tenha efeito direto sobre humor, ansiedade ou outros desfechos emocionais, ela pode integrar rotinas de cuidado que contribuem indiretamente para o bem-estar global. A melhora da saúde da pele - frequentemente associada à autoestima e à percepção de autocuidado -, o suporte à mobilidade e ao conforto articular, que facilita a prática regular de atividade física, e até a presença de aminoácidos como a glicina, que pode auxiliar na qualidade do sono, são aspectos que compõem um contexto favorável ao equilíbrio do corpo como um todo.
Dessa forma, o colágeno pode ser entendido como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado integral, voltada à saúde estrutural que, quando alinhado a hábitos saudáveis, contribuem para a sensação de equilíbrio.
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Fontes
-Palmer CA, Bower JL, Cho KW, Clementi MA, Lau S, Oosterhoff B, Alfano CA. Sleep loss and emotion: A systematic review and meta-analysis of over 50 years of experimental research. Psychol Bull. 2024 Apr;150(4):440-463. doi: 10.1037/bul0000410. Epub 2023 Dec 21. PMID: 38127505.
-Selvaraj R, Selvamani TY, Zahra A, Malla J, Dhanoa RK, Venugopal S, Shoukrie SI, Hamouda RK, Hamid P. Associação entre Hábitos Alimentares e Depressão: Uma Revisão Sistemática. Cureu. 9 de dezembro de 2022; 14(12):e32359. doi: 10.7759/cureus.32359. PMID: 36632273; PMCID: PMC9828042.
-Martinez VML, Martins MDS, Capra F, Schuch FB, Wearick-Silva LE, Feoli AMP. The Impact of Physical Activity and Lifestyle on Mental Health: A Network Analysis. J Phys Act Health. 2024 Sep 17;21(12):1330-1340. doi: 10.1123/jpah.2024-0198. PMID: 39293789.
-Abrahão, L. (28 dez 2024). Janeiro Branco 2025: Um convite nacional para a promoção da saúde mental. Instituto Janeiro Branco. Disponível em: https://janeirobranco.org.br/janeiro-branco-2025-um-convite-nacional-para-a-promocao-da-saude-mental/?utm_source=chatgpt.com janeirobranco.org.br
-AMBRAC. (9 set 2025). Crise SILENCIOSA – Brasil enfrenta uma epidemia de saúde mental em 2025. AMBRAC. Disponível em: https://ambrac.com.br/ambrac-crise-silenciosa-brasil-enfrenta-uma-epidemia-de-saude-mental-em-2025/


